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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O Mendigo no Espelho - Conto


Conheça um dos trabalhos de Wagner Andrade!
 Nascido em São Paulo em 1980 e interessado por livros desde a infância. Atuou como docente, desenvolvendo sua habilidade de observação durante o convívio com jovens estudantes.
  Publicou inicialmente "O Marechal" em 1997, mas escreveu seu primeiro livro aos 14 anos, "Família" foi publicado em 1998 e lançado na Bienal do Livro de São Paulo do mesmo ano. 
  Aqui o link para "Recortes Adolescentes".


Boa leitura!


O Mendigo no Espelho

 Era mais uma daquelas noites para se esquecer em São Paulo. Chuva pesada no fim da tarde, milhares de pessoas presas em seus carros, regiões inteiras debaixo d'água e trânsito dando nó. Melhor nem acessar internet, só veria tragédias, desabamentos e imagens de helicópteros mostrando a paradoxal decadência de uma metrópole em constante evolução.

 Experiente, já fiz hora extra no escritório. "Deixe o povo se matar no horário de pico e vá depois, em paz". Mas não foi bem assim.

 Anos e anos de trânsito e eu sabia como cortar caminhos por dentro de alguns bairros. E foi num desses, em uma rua tranquila, que passei por uma poça e meu carro bateu em algo. Barulho estranho, mas eu prossegui, devia ser uma pedra ou algo assim. Mas alguns metros à frente, pouco antes de um cruzamento, senti o carro estranho. O pior da chuva havia passado, mas naquele momento a chuva não estava fraca. Tive de parar para ver. Pneu furado, calota quase destruída, o que eu tinha feito?

 Não havia outra alternativa. Com raiva, peguei a chave e comecei a trocar o pneu. No entanto, eu fazia muita força, até com os pés, e não estava conseguindo retirar uns parafusos. De repente, percebi uma sombra se aproximando. Fiquei assustado e quando percebi, era um homem em panos rasgados e mal-encarado, um mendigo. Na hora pensei que iria me roubar, por reflexo. Mas em um segundo de lucidez, pensei que ele não teria nada a roubar de importante, nem sairia de lá com o carro também. Ele chegou mais perto e me perguntou se precisava de ajuda. Eu estranhei, mas logo pensei que teria de pagar a ele. Ele repetiu: "O senhor precisa de ajuda? Estava vendo da calçada, não está conseguindo, eu acho que consigo". Fiquei sem graça, mas recusei, mas ele insistiu e intercedeu, quase tomando a chave de minha mão. "Eu ajudo o senhor". Eu respondi que não podia pagar. Ele sorriu e virou-se: não precisa, só quero ajudar.

 O pobre homem era habilidoso, rapidamente começou a girar a chave e a retirar uns parafusos. Ele cheirava tão mal que eu me incomodei. Tentava disfarçar, dava dois passos para lá, olhava de novo. Só que ele percebeu e tentou não ligar, ou demonstrar que não se importava.

 Quando ele terminou, eu agradeci bastante, mas hesitei em apertar-lhe a mão imunda. Ele fingiu não se incomodar de novo, e começou a conversar:

_ O senhor pensou que eu fosse um ladrão, não é?
_ Não... ladrão não trabalha debaixo de chuva forte - respondi.

 Depois eu pude perceber que resposta estúpida eu dera. Lamentável. Tentei consertar:

_ E o senhor, vive aqui?
_ Não, eu sobrevivo aqui. Durmo debaixo daquela marquise - apontou-me para o lado oposto da rua.
_ Mas tem família? Digo... desculpe perguntar.
_ Não, não tem problema, seu... seu...
_ Márcio, por favor, Márcio.
_ Eu, Adílson.
_ Obrigado, Adílson. Não sei o que faria aqui, estaria dando murros no carro até agora.
_ Não foi nada, seu Márcio.

 O meu celular tocou. Só atendi porque era minha mãe, preocupada se eu chegaria em casa bem. Logo respondi que estava bem, só trocando pneu, mas num lugar seguro. Assim que desliguei, o mendigo Adílson continuou:

_ Mãe!!! Que falta da minha. A velha é danada demais.

 Fiquei constrangido, mas mesmo assim continuei perguntando sobre e vida do rapaz:

_ Mas, então... por que... é... por que vive aqui? O que aconteceu com você?
_ Vim da Paraíba... tentar a vida. Não consegui nada fixo, e terminei na rua.
_ Não tem ninguém aqui?
_ Não, senhor.
_ Tentou voltar pra sua terra? - estranhei um homem lúcido aceitar aquela situação deplorável.
_ Não, de jeito nenhum!
_ Mas por quê? - perguntei, espantado.
_ Tenho vergonha! Vergonha de minha família. Minha mãe, sabe, ela é analfabeta, mas mais esperta que nós dois juntos. Eu não tenho coragem de voltar mentindo, ela vai saber que sou fracassado quando olhar na minha cara... Não, voltar, não volto. Fracassado, nunca!

 Fiquei extremamente incomodado com aquela fala. Dolorida, cheia de mágoa e sofrimento. Hesitei por uns segundos, mas prossegui a conversa:

_ Eu não tenho como te ajudar agora, mas amanhã faço questão. Virei aqui, trarei roupas e sapato. Faço questão de retribuir o que fez por mim de algum modo. Por favor, não se ofenda.
_ Não, não me ofendo, não. Mas por favor... se for trazer algo, prefiro que traga ração - ele disse calmamente.
_ Ração?
_ É, ração.
_ Mas como assim, para quê? - estranhei o pedido.
_ É que alimento a cachorrada da rua. Eu me viro melhor que eles. Os cães não sabem pedir.

 Um nó apertou minha garganta na mesma hora. Aquele mendigo, fedido e mal tratado, largado e esquecido nas ruas, mas que pensava primeiro no desgosto da mãe e na fome dos cachorros. E gente bem sucedida como eu a pensar que se alguém está assim é porque fez por onde, porque não sabe conviver com as pessoas e se entrega às drogas e à bebida.

 Num impulso, eu me despedi com um abraço bem forte, e aquilo me fez renascer de algum modo. Prometi voltar no dia seguinte, entrei no carro e dei a partida. Vi um aceno pelo retrovisor e retribui. Sem exagerar no drama, por alguns momentos percebi que o grande infeliz da história era eu. Com tudo na mão e nada a oferecer a ninguém. Nada que seja realmente importante para a vida de alguém. Bem estar, qualidade de vida e paz de espírito comprada!



;)

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